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Valkyrie, uma possibilidade de redenção?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.01.10

 

Valkyrie surgiu na minha vida muito recentemente num dos canais da TVCine. E desde a primeira vez que o vi (já o revi duas vezes), senti que estava a ver um documentário em tempo real. Agora sei porquê. Conseguiram filmar nos locais exactos onde tudo aconteceu. Essa emoção passou, está lá, no filme, nos actores que vestiram a pele das suas personagens. Há uma energia intensa neste filme, uma electricidade, não sei explicar melhor.

Valkyrie lembra-nos a resistência de alguns oficiais, que tudo arriscaram para salvar vidas, e a Alemanha, antes da destruição final.

 

Valkyrie foi uma operação essencialmente militar concebida de forma brilhante. Tratava-se da utilização, com algumas alterações fundamentais, de um programa de emergência de protecção do governo nazi. Todos os passos foram minuciosamente respeitados, nada foi deixado ao acaso. Mas foi o elemento humano que a comprometeu. (Não admira que o seu alvo, o psicopata no poder, se julgasse protegido por um poder divino! Inúmeras tentativas e saiu sempre ileso.)

 

O momento mais forte do filme? Talvez o breve encontro do coronel Stauffenberg com Hitler, para conseguir uma assinatura. E a frase: É preciso perceber Wagner para entender o nacional-socialismo...

O momento mais comovente? A execução dos oficiais, um a um, em frente do pelotão de fuzilamento.

Mas teria sido realmente possível controlar todas as variáveis? Valeu a pena tentar, valeria sempre a pena tentar.

 

Fui tentada a imaginar a Europa se a operação Valquíria tivesse sido bem sucedida. Quantas vidas se teriam poupado, a começar pelos campos de concentração, o próprio desfecho da guerra teria sido diverso, não teria havido a divisão da Europa em Leste e oeste, o muro de Berlim, as fronteiras teriam permanecido inalteradas.

E sobretudo, a Alemanha teria tido a sua possibilidade de redenção, palavras do coronel Stauffenberg a um colaborador reticente. Redenção embora tardia, e facilmente confundida com o período do desespero,pois já se estava perto do fim: a ocupação de Berlim já parecia inevitável. Mas ainda assim, redenção.

Para a Alemanha do pós-guerra, e mesmo para a actual, este conhecimento, da existência de consciências que não perderam  a ligação à sua humanidade, é fundamental.

 

Aqui a resistência pacífica a uma linguagem bélica como o nazismo, com um pensamento mágico (julgavam-se superiores e invencíveis), revelou-se impraticável.

E é aqui que as grandes questões filosóficas e morais se colocam: como evitar que se continuem a cometer crimes hediondos se esta gente no poder é completamente destituída de uma consciência humana?, se não revelam o mínimo respeito pela vida?, pelas pessoas?, se a sua única lógica é a destruição e a morte?

Este é o dilema. Para os resistentes pacíficos, os políticos intelectuais, a resposta à sua resistência pacífica foi a morte por enforcamento.

A verdadeira coragem tem sempre um impacto que perdura no tempo, permanece muito depois da morte física, sobrevive a todas as linguagens do poder.

 

Confunde-se com demasiada frequência a verdadeira coragem humana com a lógica da morte e destruição: a diferença está que a primeira arrisca a vida para salvar vidas; a segunda apenas concebe a destruição, é a sua única motivação. A primeira ama a vida acima de tudo; a segunda segue a morte, princípios fanáticos, ordens, papéis, sem alma lá dentro.

 

 

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publicado às 20:21

O Cinema Americano nos anos 40

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.01.10

 

O Cinema Americano nos anos 40é o ciclo escolhido pelo My one thousand movies depois de ter desafiado os leitores a propor uma década do cinema.

Isto quer dizer que vamos ter acesso a filmes pouco conhecidos desta década considerada pelo autor do blogue (e por muitos outros cinéfilos) como "a melhor década do cinema americano":

 

" ... Os anos 40 foram a década em que o cinema passou a ser mágico. Embora os efeitos especiais fossem quase inexistentes, conseguia-se fazer filmes com muita magia, fáceis de encantar.
O fantasma da Segunda Grande Guerra pairou sobre esta década, e influenciou e de que maneira a filmografia deste país. As pessoas procuravam no cinema uma maneira de se refugiarem da preocupação da guerra, e por outro lado o cinema também servia de veículo para espalhar pelas pessoas o sentimento de revolta.
Por esta altura, diversos grandes realizadores europeus refugiaram-se nos Estados Unidos para fugir da guerra, que assolava maioritariamente a Europa. Havia os casos de Alfred Hitchcock, René Clair, Jean Renoir, Fritz Lang entre outros. Alguns deles construíram grandes carreiras nos Estados Unidos.
A Disney começava a produzir grandes filmes no ínicio da década de 40, como Fantasia, Pinocchio, Dumbo ou Bambi, sempre capitaneados pelo mestre Walt Disney.
Foi nos anos 40, que o único movimento que se pode considerar genuinamente americano deflagrou: o film-noir. Movimento esse que ainda hoje influencia inúmeros filmes e encanta multidões.

Nos anos 40 também houve screwball comedies, filmes de piratas e corsários, filmes anti e pró guerra, enfim tanta coisa.
Claro que eu posso estar enganado, mas para mim esta foi mesmo a melhor década. ... "

Para já, este The Mortal Storm, um filme de Frank Borzage com James Stewart e Margaret Sullavan, "um dos raros filmes anti-nazis que Hollywood produziu antes de Pearl Harbour".

E não digo mais. Sigam este ciclo de cinema em primeira mão.

 

 

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publicado às 00:18

A atmosfera poética do Cinema dos anos 60

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.10

 

Diz-se de quem ama o Cinema que é cinéfilo, mas eu nunca me incluí nessa classificação. Não me considero cinéfila e amo o Cinema.

Não pertenço a nenhum grupo de fãs, não colecciono filmes como alguns amigos, não assino revistas de cinema, não estou a par das estreias e desconheço os nomes dos realizadores e actores mais recentes, uma vergonha.

Mas posso dizer que amo o Cinema, que por ele me deixei fascinar e que ainda me hipnotiza, a sua atmosfera, a sua tonalidade, os diálogos, os sons...

Para mim é um mundo tão real como aquele em que me movimento, e tão vivo como este. Pode soar-vos estranho, uma excentricidade, mas aprendi imenso a ver filmes, aprendi por exemplo que não estamos limitados a esta mediocridade que nos rodeia, que há um mundo possível se o quisermos inventar, onde podemos respirar livremente, viver plenamente.

 

Desde os primeiros musicais que vi a preto e branco até aos épicos, aos westerns, às comédias, que o Cinema me prendeu para sempre. Entrou no filme, diziam de mim lá em casa, pois concentrava-me de tal forma que não ouvia ninguém.

 

Certamente que este To Kill a Mockingbird o terei visto na fase impressionável porque as cenas me pareceram familiares, aquela cidadezinha perdida no sul, os argumentos do advogado Atticus no tribunal em defesa do jovem negro, o ambiente, por vezes sufocante por vezes acolhedor, de um mundo isolado e dividido.

Uma das originalidades do filme é a utilização do narrador a recordar esse verão, em que era apenas uma rapariguinha de seis anos: Scout, filha de Atticus. É pelos seus olhos e das outras crianças, o seu irmão Jem e o primo Dill, que vamos acompanhando aquele caso terrível de ignorância, intolerância e racismo de uma comunidade fechada, no tempo da depressão.

O rapaz negro, injustamente acusado de violar uma rapariga branca, não terá hipótese com um júri formado apenas por brancos. O final já se adivinha, mesmo antes de o sabermos.

 

Atticus é a personagem-herói típica, da natureza dos heróis que apenas cumprem o seu dever, apenas assumem a sua responsabilidade. Dele dirá a sua governanta, sentada nas escadas à porta de casa com as crianças: Há pessoas que fazem por nós a parte desagradável, como o vosso pai.

 

Comoventes algumas cenas: o filho que insiste em acompanhar o pai quando vai dar a má notícia à família. A forma como o vê enfrentar pacificamente a agressividade do pai da rapariga branca. As duas crianças a atravessar o bosque e a ser atacadas por esse homem agressivo, e depois salvas pelo Boo, o homem que consideravam louco e até perigoso. A rapariguinha a pedir ao Boo para se despedir do Jem que dorme, a salvo, depois do ataque que lhe fracturara um braço. O Xerife a decidir não acusar Boo, uma vez que as contas estão saldadas, uma morte pela outra. E a frase mais poética: Seria como matar um passarinho.

 

Se pensamos que há inovações em Cinema, estamos muito enganados. Já foi tudo experimentado. A inovação está simplesmente na tecnologia, nos efeitos especiais. E mesmo que se tente melhorar a técnica, a atmosfera é irrepetível. Não sei explicar isto melhor. Havia uma qualidade no Cinema dos anos 60 que se terá perdido na década seguinte: uma frescura, uma verdade, uma simplicidade, uma emoção que não se sabe de onde vem...

Ou então sou eu que transporto essa vivência só minha para o filme e já não os sei distinguir...

 

Também na utilização do narrador filosófico que nos deixa mensagens, e que agora é frequente em diversos filmes e séries televisivas. Vemos Scout levar Boo pela mão para a casa onde ele vive, isolado, e dizer-nos: Só conhecemos alguém se vestirmos a sua pele por uns tempos... As crianças tinham descoberto um amigo, um aliado, em alguém que tinham considerado louco e perigoso, só porque era diferente.

 

Curiosidades: consegui identificar o Robert Duvall na pele de Boo! Muito mais jovem, claro. Não é fácil, pois o rosto altera-se,  mas há pequenas nuances para alguém muito atento.

Nesta personagem vi de certo modo o Eduardo Mãos de Tesoura de Tim Burton. E na própria atmosfera do filme, sente-se já a antecipação de realizadores actuais que revelam uma sensibilidade semelhante. É como se este Cinema lhes tivesse aberto o caminho, a essa nova sensibilidade.

 

Que mais posso eu dizer sobre esta pequena obra-prima? Que é mais um filme baseado num livro premiado com um Pulitzer. Com um guião muito bem concebido. E uma realização impecável. A fotografia, a montagem, os diálogos, a narração, a banda sonora... de tirar a respiração. E os actores, bem, perfeitos.

 

 

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publicado às 01:57

A loucura inevitável e a cura possível

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.01.10

 

No meu tempo da faculdade em Coimbra fomos várias vezes ao cinema rever alguns filmes: Voando Sobre um Ninho de Cucos, A Laranja Mecânica, O meu Tio da América. O objectivo: identificar algumas técnicas terapêuticas e perceber como funcionavam algumas instituições psiquiátricas.

De todos os filmes sobre a loucura e as clínicas psiquiátricas o mais perturbador para mim tinha sido Lilith de Robert Rossen, com Warren Beatty e Jean Seberg. Penso até e julgo não estar muito errada, que os anos 50 e 60 terão sido os que mais aprofundaram a loucura e o processo doloroso e solitário da cura possível ou da sua impossibilidade.

Mas nenhum dos filmes que alguma vez vi me preparou para este Adam Resurrectede esta clínica no meio de um deserto em Israel.

 

Como se sobrevive ao maior horror? À morte da família? À maior humilhação possível, impensável?

Através da loucura, a única possibilidade, até ser capaz de matar todos os fantasmas que o habitam, um a um. Até ser capaz de gritar para o céu, Porquê? Porquê?

 

Adam, um ex-grande empresário do circo em Berlim, megalómano, excessivo, rico e adorado pelo público, vê-se repentinamente preso e sujeito à maior humilhação possível: é o cão de estimação de um oficial menor nazi. Disse atrás cão de estimação porque é mesmo isso que passa a ser, com coleira e tudo. E tudo fará para salvar a família, submeter-se-á a todas as humilhações. No final nem sequer isso consegue: assistirá à sua partida para o forno crematório enquanto, acorrentado e de coleira, toca violino à sua passagem. De todas as cenas angustiantes que já vi, esta é uma delas: como avaliar a impotência de alguém que nem sequer se revolta, que não grita nem esperneia, mas que fica ali, na obediência servil, a tocar violino?

Esta cena lembrou-me outro filme, Sophie's Choice, aquela parte em que um nazi a obriga à escolha impossível, impensável. Sofia não poderá sobreviver à sua escolha forçada nem ao horror do que se segue.

 

Adam sobrevive a tudo e até salvará alguém, também internado nessa clínica em pleno deserto, mas terão de ver o filme. Ironia na maior tragédia: só Adam o poderia ter salvo, mostrar-lhe a sua verdadeira identidade. E a difícil fase da confiança, ultrapassar o medo.Adam podia entendê-lo, já estivera lá.

Disse atrás sobrevive a tudo... Sobrevive fisicamente a tudo, mas nas cenas finais vemos como os seus olhos estão infinitamente tristes apesar de tranquilos.

 

Mais recentemente revi Shindler's List. Apesar de todo o horror do gheto, dos fuzilamentos, dos campos de concentração, tem uma tonalidade de esperança, do princípio ao fim. É um hino à capacidade humana de sobreviver, de manter a dignidade possível, de confiar na comunidade, da infinita gratidão. Angustia-nos e comove-nos, mas mantemos a esperança.

No Sophie's Choicee no Adam Resurrected não há qualquer esperança para os protagonistas, qualquer. Sofia antecipa o fim e Adam refugia-se numa vida solitária e tranquila.

 

Não era bem este tema que eu tinha programado para iniciar um novo ano neste rio às vezes calmo às vezes caudaloso, tinha pensado num tema mais ameno como o meu fascínio pelos filmes poéticos dos anos 60, como este que apanhei a meio hoje, por acaso, na TVC 2, To Kill a Mockingbird. Virá a seguir. Ainda estou sob o seu efeito hipnótico, absorvida na sua atmosfera... Já o tinha visto há muitos muitos anos e quase o tinha esquecido até dar com ele hoje...

 

 

 

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publicado às 23:21


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